Marcas...

Quando era mais nova, e andava no secundário era uma rapariga muito tímida e reservada. Tinha dois ou três amigos, não saia e nunca tinha tido um namorado. Nesta altura já quase todos os meus amigos tinham ou já tinham tido alguém e eu não. Nunca fui uma pessoa namoradeira e por isso estas questões passavam-me um pouco ao lado. Mesmo assim, a minha confiança em mim começou a ser cada vez menor, ao ver as minhas amigas a falarem com rapazes e esses rapazes interessados nelas. O que é que elas tinham que eu não tinha? Não era bonita o suficiente? Não era interessante? O que é que eu tinha de errado?

Até que quando estava no 12º ano apareceu alguém que me viu, que teve interesse em conhecer-me e que me disse que gostava de mim. Ainda hoje não sei se realmente gostei desta pessoa ou se me deixei levar por esta atenção, por este cuidado, por ter alguém que gostava de mim... de mim!

Comecei então uma relação que durou cerca de um ano.

No inicio corria tudo bem, entendíamos-nos, falávamos imenso, e era bom ter um namorado, alguém que me dizia que gostava de mim, uma companhia. Mas rapidamente as coisas começaram a mudar.

As palavras tornaram-se cada vez mais agressivas e cada vez menos doces. As acções tornaram-se cada vez mais opressivas e controladoras e dei por mim numa relação abusiva. O "meu amor" passou a "p*ta", o "amo-te" passou a "não prestas para nada". Os amigos que tinha tornaram-se cada vez mais escassos. A liberdade que tinha deixou de existir. Esta pessoa lia as minhas mensagens, faltava às suas próprias aulas para me ver a fazer Ed. Física para ver se falava com algum rapaz, ocupava todos os meus intervalos e não me deixava falar com mais ninguém, discutia comigo se demorava muito tempo a responder a uma mensagem (mesmo quando estava nas aulas), cortava-se se eu me chateava com ele, fingia ataques de pânico, dizia que se eu o deixasse ele ficaria sozinho, fugia de casa..bateu-me..lembro-me de um episódio em que acordei e tinha 67 chamadas não atendidas. Tornou-se um inferno. Não podia ir a local nenhum onde ele não fosse, não podia falar com ninguém sem que ele soubesse. Tentou virar-me contra os meus amigos, contra a minha família.

Dei por mim numa situação de onde não conseguia sair. É inexplicável aquilo que se sente numa situação destas. Pensava cada vez mais que a culpa era minha, que não prestava realmente, que merecia o que me dizia. Pensava que se alguém que dizia que me amava tinha esta opinião de mim então deveria ser mesmo lixo. Pensava que mesmo que terminasse a relação poderia encontrar alguém pior. Tinha esperança de que ele mudasse como tantas vezes me prometeu. Tinha medo do que ele poderia fazer. Tinha medo...

Consegui libertar-me desta relação quando entrei na faculdade. Descobri que me mentia. Tive a coragem de finalmente colocar um ponto final, apesar de todas as súplicas, de todos os ataques de pânico, ameaças. E fugi. Entrei na faculdade. Mudei de cidade. Sabia que não o teria de ver mais. Só assim me consegui libertar desta prisão, uma vez que sabia que mesmo que pusesse um ponto na relação continuando na mesma escola e na mesma cidade ele me continuaria a perseguir.

Há marcas que ficam sempre. Nunca voltamos a ser a mesma pessoa que éramos antes de passar por algo assim. A confiança, auto-estima, fica completamente abalada. A forma de ver as relações fica distorcida, "porque se calhar é mesmo normal estes ciúmes e este controlo. Se não me amasse não fazia isto". Há coisas que nunca se recuperam. Ainda hoje sei que permito que as pessoas me tratem de certa forma devido a esta experiência que tive. Porque uma vez que somos "lixo" é difícil deixarmos de nos sentir assim. É difícil lutarmos por aquilo que merecemos, e por sermos tratados da forma que merecemos.

Comentários

  1. O horror que tu passaste é indescritível. Ele é que não prestava e fez com que acreditasses que eras tu que não valias nada. Uma carga de cachaporra naquele lombo ainda seria pouco para o endireitar, esse malvado. Espero que consigas recuperar do abalo que ele te provocou e que encontres a felicidade que mereces.

    Beijinho*

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